Opinião – Ocupação das escolas: a primavera estudantil da rede estadual

 

O programa criminoso do governo Alckmin de reorganização da rede estadual, que na prática significa um eufemismo para o fechamento de escolas, turnos e salas de aula, tem gerado uma grande indignação não só de alunos, pais e professores, mas de vários setores da sociedade que vêm se colocando totalmente contrários a mais um ataque tucano à já combalida e agonizante escola pública do nosso estado.

Além disso, esse governo, de uma forma covarde, aciona o aparato repressivo do estado ” a Polícia Militar “, e o aparato jurídico ” a Procuradoria Geral do Estado “, contra estudantes da educação básica que, de uma forma pacifica, democrática e cidadã, ocupam politicamente as suas próprias escolas a fim de se fazerem ouvidos e exigindo que o Poder Executivo cumpra o preceito constitucional da gestão democrática da escola pública. Assim somos obrigados a dizer, em alto e bom som, que o governador tem uma postura criminosa e covarde.

Mas nem tudo são trevas. Tenho percorrido dezenas de escolas ocupadas pelos alunos e presenciado um dos acontecimentos mais bonitos e revitalizantes da rede estadual. Uma espécie de primavera estudantil em que adolescentes são protagonistas e agentes históricos da mudança e da crítica a uma ação perversa do governo, que visa prejudicá-los em nome da lógica do ajuste e da austeridade fiscal, nada pedagógica.

Esses meninos e meninas ocupam os prédios com responsabilidade e organização, preservando o patrimônio escolar e fazendo reuniões e assembleias constantes para avaliar o movimento e como dar prosseguimento à luta contra o desmonte da escola pública. Muitos pais e professores acampam do lado de fora da escola dando apoio e suporte, orgulhosos do despertar e engajamento de seus rebentos e pupilos.

Criam equipes de limpeza, comunicação, segurança e de infraestrutura. Articulam saraus, palestras, teatro, música, jogos e aulas públicas. Ou seja, os jovens estão dando uma verdadeira aula de cidadania, democracia, participação, organização e criticidade. Aprendem eles e a comunidade escolar; e aprendemos todos nós. Temas como judiciário, liminar, reintegração de posse, defensoria pública, ministério público, organização horizontal etc. entram em seu universo e permitem que aprendam, na realidade experiencial, como funciona a sociedade opressora em que vivemos. Porém, aprendem mais ainda que é possível transformá-la. Agora entendem o que afirma Paulo Freire: o mundo não é; o mundo está sendo.

Creio que não haverá motivo para reposição de aulas das escolas ocupadas, pois os conteúdos vivenciados pelos estudantes que ocupam legitimamente as suas escolas são fundamentais, não só para a comunidade escolar, mas também para toda a sociedade que vive o drama da grande desigualdade social e econômica, causa de todas as mazelas e da agonia de milhões de pessoas em nosso país.

Agradecemos vocês, alunos, por ocuparem as escolas e os parabenizamos por acenderem a chama da luta e da resistência contra os exterminadores da educação pública.

*Carlos Giannazi é deputado Estadual (PSOL) e membro titular da Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa de São Paulo.